5/21/2011

Abecedário da Lari: Letra X


Olá meninas, vamos prosseguir em mais uma semana deste nosso abecedário/catálogo de imagens e sentimentos?
Desta vez resolvi fazer a última ficha do álbum - o X de xícara.
Xícaras são também lindos elementos decorativos - pura inspiração! 
Ah, xícaras com passarinhos e flores... quem se lembra de um papel da Webster´s Pages?


A xícara que acolhe um líquido quente - um chá ou café (no meu caso chá pois detesto café) e traz uma sensação de aconchego a cada gole sorvido...


E a xícara vem acompanhada de um bule e alguns bolinhos... aqui em tags que confeccionei p/ esta postagem...


E tudo isso é um convite à criação...


Um convite à diversão...

Xicaras são elementos banais, do mobiliário da casa. Mas por um momento podem ser algo mais, podem fazer parte de uma rotina um pouco mais bonita, de uma casa um pouco mais florida... da poesia do aconchedo...

Xícaras estão em locais deliciosos, como cafés de livrarias, o armarinho da casa da vó, o chá que se toma na casa da amiga, as fotos que a Dri me envia toda manhã pela Yummy´s...
E xícaras estão aqui neste blog e na ficha que preparei p/ vocês como parte de meu abecedário, numa semana em que não consegui fazer muito mais do que tirar estas fotos...

Um ótimo final de semana a todas!!!

5/20/2011

Artist Date: Menotti del Picchia

Every once in a while, I share here not only my artwork, but also  a special projetc that it´s called "Artist Date". Something taken from Julia Cameron that inspires me to live the creative life and gives you a glimpse of the real person I am and the inspiration behind some of my works.
This week I created an Inspiration Journal inspired by Menotti del Picchia´s poem "Masks". It´s all about Pierrot´s dream.

In Portuguese:

Olá meninas,
Hoje venho mostrar a vocês este que é um dos meus projetos artísticos preferidos, o álbum poético "triste Pierrot apaixonado", que saiu na última Revista Guia do Scrapbooking.

Eu já andei soltando a foto da capa dele pelo blog sem muito explicar... porque, na verdade, eu acho que arte não se explica. O que tem um significado pra mim pode ter outro significado para você e, não importa, pois o pano de fundo sempre é a beleza de cores e emoções.

"É tão doce sonhar..."

Ultimamente, mais do que nunca, com a disseminação de materiais alternativos e a incursão cada vez maior de técnicas de mixed-media em scrapbooking, as propostas criativas vão muito além de retratar nossa própria história e nossos próprios momentos e passam a envolver arte, pelo simples prazer de criar, de ver cores e tintas misturarem-se uma às outras ou de percorrer um caminho criativo.

Nessa linha, a proposta dos “Inspiration Journals”, diários ou cadernos de inspiração, têm dado asas à imaginação de scrappers e artistas de mixed-media. O lema a seguir na elaboração desses trabalhos é o de que o importante é praticar a arte intensamente, de forma a vivermos uma vida criativa que nos leve a incorporar a poesia ao nosso dia-a-dia, transformando-nos como pessoa e, num caminho inverso, transformando a nossa história.

E foi isso que resolvi fazer – literalmente incorporar a poesia aos meus trabalhos, montando um mini álbum poético inteiro dedicado ao personagem Pierrot, da Commedia dell´arte italiana como pano de fundo!

Para a confecção desse mini álbum, além da incursão de técnicas outras ao scrapbooking tradicional, como a pintura de canvas, eu busquei inspiração na poesia brasileira modernista, que explorou muito a história do palhaço triste, sonhador e apaixonado por Colombina, a qual, por sua vez, estava dividida entre o amor de Pierrot e de Arlequim.

Dentre as variadas obras à disposição, um poema, em particular, chamou-me a atenção por sua beleza – trata-se do poema Máscaras de Menotti Del Picchia, em que ele apresenta uma releitura de Pierrot, Colombina e Arlequim.

Trechos desse lindo poema foram impressos e colados ao meu inspiration Journal, trazendo um toque adicional de mistério ao meu trabalho.

Procurei tabalhar as páginas com cores diferenciadas, dependendo do sentimento retratado no trecho da poesia escolhida

Noite e dia, amor, traição, poesia...
Usei também papéis Studio 2 Mers que possuíam o tema "Au Clair de la Lune", perfeitos para meu álbum,
Para compor meu Inspiration Journal, eu escolhi um dos álbuns em canvas lançados pela Prima Marketing em parceria com Donna Downey, a grande responsável pela disseminação do scrapbooking em tecidos , pela incursão nele das lonas que são a matéria prima da confecção de telas de pintura e das técnicas de pintura dos canvas.

O canvas traz infinitas possibilidades artísticas, já que é próprio à pintura e se constitui como uma superfície muito mais adequada à dispersão de tintas que o papel, além de possuir uma textura muito interessante.

Então, para aproveitar todo seu potencial, eu pintei todos os meus fundos de página e, como a proposta era usar imagens vintage de Pierrot e Colombina, eu preferi, ao invés de simplesmente imprimi-las e colá-las ao canvas, valer-me da técnica de transferência de imagem, que eu explico detalhadamente no artigo.

Também usei uma media fabulosa, que são os Pan Pastels, algo que já mostrei em São José dos Campos e que mostrarei em São José do Rio Preto  no passagem do Scrap 4 You por lá em junho, numa página que é uma das  mais lindas que já fiz.  Escolhi estas turmas para mostrar os Pan Pastels pois preciso sempre de turmas menores e interessadas para poder ensinar algo que envolve, sem sujeira, criação e poesia. E não tem segredo - sentimento e medias - é a formula do sucesso!
  
Mas deixem-me contar um pouco sobre o processo criativo deste álbum.
Comecei a fazê-lo por esta página confeccionada para o Creative Therapy e logo em seguida fiz a última, na qual eu queria usar uma foto minha de Pierrot e por isso foi que vocês acompanharam  um ensaio fotográfico aqui no blog há tempos atrás em que eu apareci de Pierrete, também triste e sem máscaras...

"à tua vida a oferta do meu sonho"


Tranquilamente, sem pressa no início, eu escolhi trechos e trechos do poema de Menotti des Picchia, que é magnífico e fui remontando...
Imagens que já guardava a tempo foram impressas e foram  me ajudando a construir a minha versão colorida da estória do palhaço triste, sem máscara, apaixonado pela Colombina, a qual, por sua vez, está dividida entre o amor de Pierrot e do Arlequim.

"Uma alma ardente e inquieta arrastando na terra um coração de poeta"

"Sob o luar claro as almas brancas dos lírios evocam fantasmas de emoções mortas"

"No temor de pedi-lo e na glória de tê-lo...
No contato desfeito e no rumor já mudo...
No gozo de prová-lo e na dor de perdê-lo...
No prazer que passou... Nesse nada que é tudo:
O passado!... a lembrança... a saudade... o desejo..."
"Não falei desse olhar cheio de magnetismo
que fulge como um astro e atrai como um abismo,
e do beijo, que como uma carícia louca...
ainda canta em meu lábio e ainda sinto na boca!"

Imaginei estes carnavais do passado, o romantismo, o amor... outro ritmo... outra poesia..


Envolvi-me completamente nestas cores, na escolha de embellishments, com brilho, textura e significado...

"Eu fiquei, sob a noite estrelada, decidido a ousar tudo e não ousando nada..."


"A vida nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra"

Esta uma das minhas páginas preferidas pelo que conta -  A IMPORTÃNCIA DE SONHAR - se é que esta vida vale alguma coisa, o que vale é sonhar. Triste daquele que vive só na amargura. Curtir a melancolia e a tristeza de um momento, sonhando com tempos melhores e criando enquanto ele não chega - isso é pura diversão e é a minha diversão!

As nossas paixões, como ali contei, refletem nas estrelas.
"Nosso corpo é tal qual uma torre fechada onde sonha uma alma encarcerada"

É isso e não mais que isso. A vida é sonho, o sonho é doce e criar sonhando é meu hobby preferido. Este foi um projeto especial p/ mim, com o qual me envolvi por dois meses. Nele coloquei minha alma de Pierrot, de triste Pierrot apaixonhado e sonhador...

Deixo vocês com Menotti Del Picchia, na íntegra, pois tenho a certeza de possuir, dentre as minhas leitoras, almas que acompanharão a poesia destas palavras até o último ponto final. 
Esta postagem é p/ vocês!!!!

MÁSCARAS
MENOTTI DEL PICCHIA

PERSONAGENS: 
Arlequim : Um desejo 
Pierrot     : Um Sonho 
Colombina: A Mulher 
                        Em qualquer terra em que os homens amem. 
                        Em qualquer tempo onde os homens sonhem. 
                                                        Na vida.  

                BEIJO DE ARLEQUIM 
                 I 
                O crescente cintila como uma cimitarra. Lírios longos, grandes mãos
                brancas estendidas para o luar, bracejam nas pontas das hastes. Uma
                balaustrada. Uma bandurra. Um Arlequim. Um Pierrot E, sobre as
                máscaras e os lírios, a volúpia da noite, cheia de arrepios e de aromas. 
  
        ARLEQUIM diz: 
Foi assim: deslumbrava a fidalga beleza da turba nos salões da Senhora Duquesa. 
Um cravo, em tom menor, numa voz quase  humana, tecia o madrigal de uma antiga pavana.  Eu descera ao jardim. Cheirava a heliotrópio e vi, como quem vê num vago sonho de ópio, uma loura mulher... 
     PIERROT 
     Loura? 
     ARLEQUIM 
Como as espigas... 
Como os raios de sol e as moedas antigas...Notei-lhe, sob o luar, a cabeleira crespa,  
anca em forma de lira e a cintura de vespa, um cravo no listão que o seio lhe bifurca, 
pezinhos de mousmé, olhos grandes, de turca... A boca, onde o sorriso era como uma abelha, recendia tal qual uma rosa vermelha. 
        
     PIERROT 
        
Falaste-lhe? 
        
     ARLEQUIM 
        
 Falei... 
        
     PIERROT 
        
     E a voz? 
        
     ARLEQUIM 
    Vaga e fugace.                                                                                
Tinha a voz de uma flor, se acaso a flor falasse... 
     PIERROT 
E depois? 
        
     ARLEQUIM 
     Eu fiquei, sob a noite estrelada, decidido a ousar tudo e não ousando nada... 
Vinha dela, pelo ar, espiritualizado numa onda volúpia, um cheiro de pecado... 
Tinha a fascinação satânica, envolvente, que tem por um batráquio o olhar duma serpente... e fiquei, mudo e só, deslumbrado e tristonho, sentindo que era real o que eu julgava um sonho! Em redor o jardim recendia. 
          Umas poucas 
tulipas cor de sangue, abertas como bocas, pela voz do perfume insinuavam perfídias... 
Tremia de pudor a carne das orquídeas... Os lírios senhoreais, esbeltos como galgos,  
abriram para o céu cinco dedos fidalgos fugindo à mão floral do cálix longo e fino. 
Um repuxo cantava assim como um violino e, orquestrando pelo ar as harmonias rotas, desmanchava-se em sons, ao desfazer-se em gotas! Entre a noite  e a mulher, eu trêmulo hesitava: se a noite seduzia, a mulher deslumbrava! 
Dei uns passos 
     Ao ruído agitou-se assustada.     Viu-me... 
     PIERROT 
    E ela que fez? 
     ARLEQUIM 
      Deu uma gargalhada. 
     PIERROT 
 Por que? 
     ARLEQUIM 
Sei lá! Mulher...Talvez porque ela achasse ridículo Arlequim com ar de Lovelace... 
Aconcheguei-me mais: “Deus a guarde, Senhora!” 
-  Obrigada.  Quem és? 
 - “Um arlequim que a adora!” 
Vinha do seio dela, entre a renda e a miçanga, um cheiro de mulher e um cheiro de cananga. Eram os olhos seus, sob a fronte alva e breve, como dois astros de ouro a arder num céu de neve. Mordia, por não rir, o lábio úmido e langue, vermelho como um corte inda vertendo sangue...E falei-lhe de amor... 
     PIERROT 
     E ela? 
     
     ARLEQUIM 
        Ficou calada... 
Meu amor disse tudo, ela não disse nada, mas ouviu , com prazer, a frase que renova 
no amor que é sempre velho, a emoção sempre nova! 
     PIERROT 
Que lhe disseste enfim? 
     ARLEQUIM 
O ardor do meu desejo, 
a glória de arrancar dos seus lábios um beijo,  a volúpia infernal dos seus olhos 
devassos, o prazer de a estreitar , nervoso, nos meus braços, de sentir a lascívia heril dos seus meneios, esmagar no meu peito a carne dos seus seios! 
     PIERROT, assustado: 
Tu ousaste demais... 
     ARLEQUIM, cínico: 
      Ingênuo!  A mulher bela  
adora quem lhe diz tudo o que é lindo nela. Ousa tudo, porque todo o homem enamorado se arrepende, afinal, de não ter tudo ousado. 
      PIERROT 
E ela? 
      ARLEQUIM 
  Vinha pelo ar, dos zéfiros no  adejo, um perfume de amor lascivo como um beijo, como se o mundo em flor vibrasse, quente e vivo, no erotismo triunfal de um amor coletivo! 
  
      PIERROT, fremindo: 
E ela? 
      ARLEQUIM 
Ansiando, ouviu toda essa paixão louca, levantou-se... 
      PIERROT 
    Depois? 
      ARLEQUIM , triunfante: 
    Deu-me um beijo na boca! 
    Um silêncio cheio de frêmito. Os lírios tremem. Pierrot  
    olha o crescente. Arlequim dá um passo, vê a brandura, 
    toma-a entre as mãos nervosas e magras e tange, distraído,  
    as cordas que gemem. 
      ARLEQUIM 
 Linda viola. 
      PIERROT, alheado: 
    Bom som... 
     ARLEQUIM 
     Que musicais surpresas não encerra a mudez 
destas cordas retesas... 
    Confidencial a Pierrot: 
Olha: penso, Pierrot, que não existe em suma, entre a viola e a mulher, diferença nenhuma.  Questão de dedilhar, com certa audácia e calma, numa...estas cordas de aço, e na outra...as cordas d’alma! 
    Suavemente, exaltando-se: 
O beijo da mulher! Ó sinfonia louca da sonata que o amor improvisa na boca... No contado do lábio, onde a emoção acorda, sentir outro vibrar, como vibra uma corda...  À vaga orquestração da frase que sussurra ver um corpo fremir tal qual uma bandurra...Desfalecer ouvindo a música que canta no gemido de amor que morre na garganta...Colar o lábio ardente à flor de um seio lindo, ir aos poucos subindo...ir aos poucos subindo...até alcançar a boca e escutar, num arquejo, o  universo parar na síncope de um beijo! 
......................................................................................................................................... 
Eis toda a arte de amar! Eis, Pierrot fantasista, a suprema criação da minha alma de artista.  Compreendes? 
     PIERROT, ansiado: 
    E a mulher? 
     ARLEQUIM, lugubremente: 
       A mulher? É verdade... 
Levou naquele beijo a minha mocidade. 
     PIERROT 
 E agora? Onde ela está? 
     ARLEQUIM, ironicamente místico: 
       No meu lábio, no ardor desse beijo, que é todo um romance de amor! 
     
     Seduzido pela angústia da saudade: 
No temor de pedi-lo e na glória de tê-lo... 
No gozo de prová-lo e na dor de perdê-lo... 
No contato desfeito e no rumor já mudo... 
No prazer que passou...Nesse nada que é tudo:  
O passado!...  a lembrança...    a saudade...   o desejo... 
     Balbuciando: 
  Um jardim... Um repuxo...Uma mulher... Um beijo.... 
  
  (Longo silêncio cheio de evocação e de cismas). 
     PIERROT, ingenuamente: 
    É audaciosa demais a tua história... 
 
  
     ARLEQUIM, ríspido: 
         Enfim, 
um Arlequim, Pierrot, é sempre um Arlequim. Toda história de amor só presta se tiver, como ponto final, um beijo de mulher! 
  
O SONHO DE PIERROT 
  
II 
  
     PIERROT 
Eu também, Arlequim, nesta vida ilusória, como todos Pierrots, eu tenho uma história, vaga, talvez banal, mas triste como um cântico... 
     ARLEQUIM, sarcástico: 
Não compreendo um Pierrot que não seja romântico, branco como o marfim, magro como um caniço, enchendo o mundo de ais, sem nunca passar disso. 
      PIERROT 
Debochado Arlequim! 
      ARLEQUIM 
       Branco Pierrot tristonho... 
  
      PIERROT 
 Teu amor é lascívia! 
      ARLEQUIM 
       E o teu amor é sonho... 
      PIERROT 
É tão doce sonhar!... A vida , nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra. Ver vaga e espiritual, das cismas nos refolhos, toda uma vida arder na tristeza de uns olhos; não tocar a que se ama e deixar intangida aquela que resume a nossa própria vida, eis o amor, Arlequim. , misticismo tristonho, que transforma a mulher na incerteza de um sonho.... 
  
      ARLEQUIM, escarninho: 
Esse amor tão sutil que teus nervos reclama só se aplica aos Pierrots? 
      PIERROT 
       Não! A todos os que amam! 
Aos que têm esse dom de encontrar a delícia na intenção da carícia e nunca na carícia...Aos que sabem, como eu, ver que no céu reflete a curva do crescente, um vulto de Pierrette... 
      ARLEQUIM,  zombeteiro: 
Eterno sonhador! Tu crês que vive a esmo tudo aquilo que sai de dentro de ti mesmo. Vês, se fitas o céus, garota e seminua, Colombina sentada entre os cornos da lua...Quanta vezes não viste o seu olhar abstrato nos fosfóreos vitrais das pupilas de um gato? 
      PIERROT 
Essas frases cruéis, que mordem como dentes, só mostram, Arlequim, que somos diferentes. Mas minha alma, afinal, é compassiva e boa: não compreendes Pierrot. E Pierrot  te perdoa... 
      ARLEQUIM 
Tua história, vai lá! Senta-te nesse banco. Conta-me: “Era uma vez um Pierrot muito branco...” 
A história de um Pierrot sempre nisso consiste... Começa. 
      PIERROT narrando: 
“Era uma vez...  um  Pierrot...       muito triste... “ 
   Uma voz, na distância, corta, argentina, a narração  de Pierrot. 
      A VOZ 
     Foi um moço audaz, que vejo 
     no meu sonho claro e doce, 
O amor que primeiro amei.. 
Abraçou-me: deu-me um beijo 
e, depois, lento, afastou-se, 
e nunca mais o encontrei. 
    
Num ser pálido e doente 
resume-se o que consiste 
o segundo amor que amei. 
Ele olhou-me tristemente... 
Eu olhei-o muito triste... 
E nunca mais o encontrei! 
Esse amor deu-me o desejo 
daquele beijo encontrar. 
Mas nunca, reunidas, vejo, 
a volúpia desse beijo, 
e a tristeza desse olhar... 
 A voz agoniza nos ecos. Pierrot e Arlequim tendem o ouvido procurando no ar mais uma estrofe. 
 ARLEQUIM 
  Essa voz... 
    PIERROT 
  Essa voz... 
      ARLEQUIM 
   Só de ouvi-la estremeço... 
     PIERROT 
     Eu conheço essa voz! 
      ARLEQUIM 
       Essa voz eu conheço... 
    Um sopro de brisa arrepia as plantas. 
   PIERROT 
 Escuta... 
      ARLEQUIM 
  Escuta... 
  
      PIERROT 
  Ouviste? 
      ARLEQUIM 
    Um sussurro... 
     PIERROT 
     Um lamento... 
     
      ARLEQUIM 
       Foi o vento talvez. 
      PIERROT 
   Sim.  Talvez fosse o vento. 
      ARLEQUIM 
Conta a história, Pierrot. 
     Pierrot continuando: 
       Numa noite divina 
como tu, num jardim, encontrei Colombina. Loira como um trigal e branca como a lua. 
     ARLEQUIM 
Era loira também? 
     PIERROT 
       Tão loira como a tua... 
Eu descera ao jardim quebrado de fadiga. Dançavam no salão... 
     ARLEQUIM, interrompendo: 
       ... uma pavana antiga, 
e notaste ao luar a cabeleira crespa... 
     PIERROT 
   ... a anca em forma de lira... 
      
  
ARLEQUIM 
    ...  e a cintura de vespa! 
     PIERROT 
   Mãos mimosas, liriais... 
     ARLEQUIM 
    Em minúcias te expandes! 
     
     PIERROT 
     Um pé muito pequeno... 
     ARLEQUIM 
        Uns olhos muito grandes! 
Uma mulher igual à que encontrei na vida? 
     PIERROT, ofendido: 
Enganas-te, Arlequim, nem mesmo parecida! 
Era tal a expressão do seu olhar profundo,  
que não pode existir outro igual neste mundo! 
Felinamente ardia a íris verdoenga e dúbia, 
como o sinistro olhar de uma pantera núbia. 
Esses olhos fatais lembravam traiçoeiras 
feras, armando ardis nos fojos das olheiras! 
Tão vivos que, Arlequim, desvairado, os supus 
duas bocas de treva e erguer brados de luz! 
Tripudiavam o bem e o mal nos seus refolhos. 
     ARLECRIM, cismando: 
Essas coisas também ardiam nos seus olhos... 
     PIERROT 
Tive medo, Arlequim! Vendo-os, num paroxismo 
eu tinha a sensação de estar sobre um abismo. 
Não sei porque o olhar dessa estranha criatura  
era cheio de horror...e cheio de doçura! 
Eu desejava arder nessas chamas inquietas... 
  
     ARLEQUIM 
   Tendo o fim dos Pierrots? 
     PIERROT 
     Tendo o fim dos Poetas! 
Aconcheguei-me dela, a alma vibrante louca, o coração batendo... 
     ARLEQUIM 
    E beijaste-lhe a boca. 
     PIERROT, cismarento: 
Não...Para que beijar? Para que ver, tristonho, no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho... Beijo dado, Arlequim, tem amargos ressábios... 
Sempre o beijo melhor é o que fica nos lábios, 
esse beijo que morre assim como um gemido, 
sem ter a sensação brutal de ser colhido... 
     ARLEQUIM 
  E que disse a mulher? 
     PIERROT 
    Suspirou de desejo... 
     ARLEQUIM , mordaz: 
  Preferia, bem vês, que lhe desses um beijo! 
     PIERROT 
 Não. Ela olhou-me. Olhei... E vi que, comovida, sentiu que , nesse olhar, eu punha a minha vida... 
    Um silêncio cheio de angústias vagas. 
    Sob o luar claro as almas brancas dos 
    Lírios evocam fantasmas de emoções 
    mortas. Os espectros das memórias 
    parecem recolher, como numa urna invi- 
    sível, a saudade romântica de Pierrot... 
 
  
      ARLEQUIM, tristonho: 
Essa história, Pierrot, é um pouco merencória... 
      PIERROT 
   A história desse olhar é toda a minha história. 
      ARLEQUIM 
  E não a viste mais? 
      PIERROT 
   Nem sei mesmo se existe... 
      
      ARLEQUIM, contendo o riso: 
É de fazer chorar! Tudo isso é muito triste! 
    Tomando-o pelo braço, confidencialmente: 
Entretanto, ouve aqui, à guisa de consolo: 
diante dessa mulher...foste um Pierrot bem tolo! 
Aprende, sonhador! Quando surgir o ensejo, 
entre um beijo e um olhar, prefere sempre um beijo! 
     PIERROT, desconsolado: 
Lamentas-me Arlequim? 
     ARLEQUIM 
Tu não compreendeste: choro não ter colhido  o beijo que perdeste. 
  
  O AMOR DE COLOMBINA 
  
II 
     Uma voz que canta se aproxima. 
      A VOZ 
  Esse olhar deu-me o desejo 
  daquele beijo encontrar, 
  mas nunca , reunidas, vejo 
  a volúpia desse beijo 
  e a tristeza desse olhar! 
      PIERROT , extasiado: 
   Escutaste, Arlequim, que cantiga tão bela? 
      ARLEQUIM 
    Era dela esta voz? 
      PIERROT 
     Esta voz era dela... 
   Arlequim está imerso na sombra e um raio de luar ilumina 
   Pierrot. Entra Colombina trazendo uma braçada de flores. 
     COLOMBINA,  vendo Pierrot: 
   Tu? Que fazes aqui? 
    PIERROT 
Espero-te, divina...A sorte de um Pierrot é esperar Colombina! 
     COLOMBINA 
Pela terra florida, olhos cheios de pranto, eu procurei-te muito... 
    PIERROT 
     E eu esperei-te tanto! 
     COLOMBINA 
Onde estavas, Pierrot? Entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e no lábio cantigas, dizia a cada flor:  “Mimosa flor, não viste um Pierrot muito branco...” 
      
     PIERROT 
    Um Pierrot muito triste... 
     COLOMBINA 
E respondia  a flor: “Sei lá... Nestas campinas passam tantos Pierrots atrás de Colombinas...” E eu seguia e indagava: “Ó regato risonho: não viste, por acaso, o Pierrot do meu sonho? “ E o regato correndo e cantando, dizia: “Coro e canto e não vejo” -  e cantava e corria...  Nos céus, ergendo o olhar, eu via, esguio e doente, o pálido Pierrot recurvo do crescente... 
Assim te procurei, entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e  no lábio cantigas, só porque, meu amor, uma noite, num banco, eu encontrara olhar de um triste Pierrot branco. 
   
     PIERROT 
Não! Não era um olhar! Ardia nessa chama 
toda a angústia interior do meu peito que te ama 
Nosso corpo é tal qual uma torre fechada 
onde sonha , em seu bojo, uma alma encarcerada. 
Mas se o corpo é essa torre em carne e sangue erguida, 
O olhar é uma janela aberta para a vida, 
e, na noite de cisma, enevoada e calma, 
na janela do olhar se debruça nossa alma 
  
   COLOMBINA, languidamente abraçada a Pierrot: 
Olha-me assim, Pierrot... Nada mais belo existe 
que um Pierrot muito branco e um olhar muito triste... 
Os teus olhos, Pierrot, são lindos como um verso. 
Minh’alma é uma criança, e teus olhos um berço 
com cadências de vaga e, à luz do teu olhar, 
tenho ânsias de dormir, para poder sonhar! 
Olha-me assim, Pierrot... Os teus olhos dardejam! 
São dois lábios de luz que as pupilas me beijam... 
São dois lagos azuis à luz clara do luar... 
São dois raios de sol prestes a agonizar... 
Olha-me assim Pierrot... Goza a felicidade 
de poluir com esse olhar a minha mocidade 
aberta para ti como uma grande flor, 
meu amor...meu amor...meu amor... 
    PIERROT 
     Meu amor! 
   Colombina e Pierrot abraçam-se ternamente. Há, como 
   um cicio de beijos, entre os canteiros dos lírios. Arlequim, 
   vendo-os, sai da treva e, com voz firme, chama. 
    ARLEQUIM 
Colombina! 
    COLOMBINA, voltando-se assustada: 
  Quem é? 
  
    ARLEQUIM 
    Sou alguém, cuja sina foi amar, com Pierrot, a mesma 
Colombina. Alguém que, num jardim, teve o sublime ensejo de beijar-te e jamais se esquecer desse beijo! 
    COLOMBINA, desprendendo-se de Pierrot: 
   Tu, querido Arlequim! 
    ARLEQUIM, galanteador: 
Arlequim que te adora...Que te buscava há tanto e que te encontra agora. 
    COLOMBINA 
  E procurei-te em vão, mas te esperava ainda. 
    ARLEQUIM a Pierrot: 
Ela está mais mulher... 
    PIERROT num êxtase: 
   Ai! Ela está mais linda! 
    ARLEQUIM, enfatuado, a Colombina: 
És linda, meu amor!  Nessa formas perpassa 
na cadência do Ritmo, a leveza da Graça. 
Teus braços musicais, curvos como perfídia, 
têm a graça sensual de uma estátua de Fídias. 
Não sendo inda mulher, nem sendo mais criança, 
encarnas, grande viva, a Flor de Liz de França... 
Sobe da anca uma curva ondulante que chega  
a teu corpo plasmar como uma ânfora grega 
e é teu vulto triunfal, longo, heráldico, esgalgo, 
coleante como um cisne  e esbelto como um galgo! 
    COLOMBINA, fascinada: 
  Lindo! 
    ARLEQUIM 
E não disse tudo... E não disse do riso 
boêmio como ébrio e claro como um guizo. 
E ainda não falei dessa voz de sereia 
que, quando chora, canta, e quando ri, gorjeia... 
Não falei desse olhar cheio de magnetismo, 
que fulge como um astro e atrai como um abismo, 
e do beijo, que como uma carícia louca... 
inda canta em meu lábio e inda sinto na boca! 
 COLOMBINA com um voz sombria de volúpia: 
Fala mais, Arlequim! Tua voz quente e langue  
tem lascivo sabor de pecado e de sangue. 
O venenoso amor que tua boca expele, 
põe-me gritos na carne e arrepios na pele! 
Fala mais, Arlequim! Quando te escuto, sinto 
O desejo explodir das potências do instinto, 
 O brado da volúpia insopitada, a fúria, 
do prazer latejando em uivos de luxúria! 
Fala mais, Arlequim! Diz o ardor que enlouquece 
 a amada que se toca e aos poucos desfalece, 
e que, cega de amor, lábio exangue, olhar pasmo, 
agoniza num beijo e morre num espasmo. 
Fala mais, Arlequim! Do monstruoso transporte  
que, resumindo a vida, anseia pela morte, 
dessa angústia fatal, que é o supremo prazer 
da glória de se amar, para depois morrer! 
    PIERROT, num soluço: 
  Ai de mim!... 
    COLOMBINA, como desperta: 
  Tu Pierrot! 
    PIERROT, num fio de voz: 
      Ai de mim que, tristonho, trazia 
à tua vida a oferta do meu sonho...Pouca coisa, porém... Uma alma ardente e inquieta arrastando na terra um coração de poeta. 
Na velha  Ásia, a Jesus, em Belém, um Rei Mago, não tendo outro partiu através de 
Cartago, atravessando a Síria, o Mar Morto infinito, a ruiva e adusta Líbia, o mudo e fulvo Egito, as várzeas de Gisej, o Hebron fragoso e imenso, só para lhe ofertar uns grânulos de incenso... Também vim, sonhador, pela vida, tristonho, trazer-te o meu amor no incenso do meu sonho. 
    COLOMBINA  com ternura: 
     Como te amo, Pierrot... 
     
    ARLEQUIM 
      E a mim, cujo desejo te abriu o coração com a chave do meu beijo? A tua alma era como a Bela Adormecida: o meu beijo a acordou para a glória da vida! 
    CALOMBINA  fascinada: 
   Como te amo, Arlequim!... 
      PIERROT 
     desvairado pelo ciúme, apertando-lhe os pulsos, 
     numa voz estrangulada:  
      A incerteza que esvoaça desgraça muito mais do que a própria desgraça. Escolhe entre nós dois... Bendiremos os fados sabendo o que é feliz, entre dois desgraçados! 
      ARLEQUIM 
Dize: Queres-me bem? 
      PIERROT: 
   Fala: gostas de mim? 
     COLOMBINA, hesitante: 
 A Pierrot: 
  Eu amo-te , Pierrot... 
      A Arlequim: 
       ... Desejo-te, Arlequim... 
    ARLEQUIM, soturnamente: 
A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!.. 
   COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão: 
Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós, o coração balanço: 
  
   A Arlequim: 
O teu beijo é tão quente...                         
        A Pierrot: 
       O teu sonho é tão manso... 
Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma!  Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho! 
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra! 
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade... 
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente, 
porque a história do amor pode escrever-se assim:  
    PIERROT 
Um sonho de Pierrot... 
    ARLEQUIM          
E um beijo de Arlequim! "